#VocêTemUmaMenteMilionária

HQs: Retalhos

24 de janeiro de 2013


  "Às vezes ao acordar, as sobras do sonhos são mais atraentes que a realidade, e relutamos em abrir a mão. Você se sente um fantasma por um tempo... 
... intangível, talvez, incapaz de tocar no ambiente ao seu redor. Ou talvez seja o sonho que o persegue. Você fica com a promessa do próximo. Mas o ato de acordar depende da lembrança. Usamos os rituais como aparatos mnemônicos...
... as festas como rituais com significados..
... e as estações como instrumento de medição."
 



Título Original: Blankets
Gênero: Autobiografia Gráfica
Autor: Craig Thompson
Ano: 2009
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 592
Nota pessoal: 5


Sinopse:
Thompson retrata sua própria história, da infância até o início da vida adulta, numa cidadezinha de Wisconsin, no centro dos Estados Unidos, que parece estar sempre coberta pela neve. Seu crescimento é marcado pelo temor a Deus - transmitido por sua família, seu colégio, seu pastor e as trágicas passagens bíblicas que lê -, que se interpõe contra seus desejos, como o de se expressar pelo desenho.
Ao mesmo tempo Thompson descreve a relação com o irmão mais novo, com quem ele dividiu a cama durante toda a infância. Conforme amadurecem, os irmãos se distanciam, episódio narrado com rara sensibilidade pelo autor.
Com a adolescência, seus desejos se expandem e acabam tomando forma em Raina - uma garota vivaz, de alma poética e impulsiva, quase o oposto total de Thompson - com quem começa a relação que mudará as visões que ele tem da família, de Deus, do futuro e, enfim, do próprio amor. Retalhos traz as dores e as paixões dos melhores romances de formação - mas dentro de uma linguagem gráfica própria e extremamente original.

 "Comovente, delicada, com desenhos maravilhosos e sinceridade dolorosa, pode ser a graphic novel mais importante desde Jimmy Corrigan." - Neil Gaiman
Resenha:
Em um determinado momento da vida crescemos e nos deparamos com vários caminhos a seguir, vários obstáculos ou problemas a enfrentar. E ideias, novos pensamentos e velhos pensamentos que chegamos a filtrar – alguns usamos e outros nem tanto. Também nos deparamos a experiências não vividas, mas que sabemos que iremos viver. Em alguns isso é expresso de um jeito sentimental e forte e outros acabam encarando normalmente. Mas todos nós sabemos que quando iremos descobrir novas experiências justamente não sabemos como irá ser. Não teremos noção do que é aquilo.


 “Retalhos” conta a história de Craig Thompson um jovem que viveu a sua infância e o comecinho perturbado de sua adolescência numa pequena cidade americana chamada Winsconsin, aonde, quando o inverno chega, não dá trégua a ninguém. Mas mesmo assim ajuda a entender um pouco a vida e não deixa-la muito insignificante.

Durante a infância Craig dividia a cama com o seu irmão caçula Phill. Ele e o seu irmão eram crianças providas de uma “alta imaginação infantil e fictícia” e às vezes isso acabava atrapalhando o comportamento dos dois já que os pais deles são aquelas pessoas que colocam a religião cristã em primeiro lugar para tudo. Também tinham um grande dom – assim como diz a mãe de Craig – para desenhar. Frequentava uma escola com base religiosa e também não se dava muito bem com certos relacionamentos, seja com os seus professores ou os seus colegas que o adoravam maltratar. Craig era a criança que não tinha conhecimentos sobre o mundo, pois a sua religião não o permitia. Mas mesmo assim não deixou de frequentar a igreja e as aulas sobre a sua religião que os pais faziam questão de que ele participasse - E também os acampamentos religiosos, que por mais que ele se excluísse, ele estava lá lendo a sua bíblia, tentando entender a sua religião e fugindo um pouco daquele mundo pecador e desentendido.

Um dia a fase da adolescência chega para Craig. Tudo é tão novo e mais difícil para ele. Tudo é tão mais forte do que antes. O físico o sentimental. Absolutamente tudo. E até que ele conhece Raina. A coisa mais linda que ele já viu na vida, o cúmulo da perfeição e da beleza: o seu primeiro amor.
Com a leitura o romance gráfico nos transmite os momentos da vida de Craig em flashbacks por justamente em alguns momentos ele estar lembrando-se do passado. A leitura não é linear, calma, não se espante, isso não irá atrapalhar. Pelo contrário, a perspectiva da leitura e imersão que você acaba adquirindo e entendendo com o tempo faz de “Retalhos” ser um romance gráfico maravilhoso e uma obra magnífica. O Autor Craig Thompson, que por incrível que parece é exatamente o personagem que você acaba seguindo, mostra em sua autobiografia gráfica uma sinceridade dolorosa e momentos lindos a todos que já tiveram o seu primeiro amor na adolescência e entendem esse sentimento.

De volta ao quarto de hóspedes, sussurei uma oração de gratidão a Deus.. Um Salmo, acho que é assim que se chama... 

"Obrigado, Deus, pela perfeição de suas criaturas. De pele suave e pálida como o luar, sob a pele, seus ossos se entrelaçando, se ajustando, subindo pela crista ilíaca, mergulhando na clavícula. Obrigado pelo ritmo de seus movimentos curvando-se... espreguiçando-se seus contornos envolvendo o cobertor como onda. Ela é sua. Ela é perfeita. Um templo... seu cabelo derramando-se sobre as têmporas" 

Deitado sobre o seu peito, posso ouvir a eternidade... espaços ocos, solitários, e correntes que se agitam sem cessar. A neve caída recebe a neve cadente com um único susurro. Talvez, pensei, em vez de oferecer graças, eu devia pedir desculpas... orar por perdão. Talvez eu devesse sentir culpa... Não. Me sinto puro como a neve.

As ilustrações são sensacionais e os traços mais sensacionais ainda. O autor colocou uma atmosfera limpa e sentimental nos seus desenhos que ao ler e acompanhar a leitura você acaba imergindo naquela cena quadrada e entendendo todos os sentimentos e o que está acontecendo com cada personagem.


Não é atoa que “Retalhos” é a graphic novel mais premiada dos últimos tempos. Vencedor de três prêmios Harvey (melhor artista, melhor romance gráfico e melhor escritor), dois prêmios Eisner (melhor graphic novel e melhor escritor), e, em 2005, do prêmio da crítica da Associação Francesa de Críticos e Jornalistas de Quadrinhos.

 "Ao contar esta história das pequenas brutalidades que os pais infligem a seus filhos e os irmãos uns aos outros, Thompson descreve a agonia e o êxtase da obsessão (por Deus, por um amor) e não teme denunciar os caminhos pelos quais a obsessão consome a si mesmo e evapora-se." - The New York Times Review of Books

Para quem não está familiarizado e quer conhecer um pouco dos romances gráficos, “Retalhos” é uma ótima escolha de inicialização. Pode parecer estranho acompanhar desenhos e textos no começo, mas depois percebe que tudo não se passa de uma leitura normal – como um livro só a base de textos. Pois a leitura desse romance gráfico é prazerosa de acompanhar. Não cansa. São mais de 550 páginas de bom romance, poesia, filosofia de vida e uma melancolia agradável.

Por mais que seja uma autobiografia de alguém, em “Retalhos” não tem como não se identificar com pelo menos alguma passagem ou algum momento de Craig e as outras personagens. Tudo é tão vívido e acontece naturalmente, com imperfeições da vida e principalmente de uma fase humana: a adolescência. E a principal transição para a fase adulta. Acima de tudo, “Retalhos” acaba mostrando ao leitor o quanto à religião pode interferir e às vezes causar problemas. O quanto à fé em algo pode ter algum significado e beirar limites físicos e mentais para o homem. O quanto um primeiro amor pode ser intenso e significativo. Que por mais que muitos anos se passem ele ainda pode deixar pegadas e marcas que nunca serão apagadas. 

LEITORES

RECEBA POR EMAIL

INSTAGRAM @fls_insta